Thursday, April 27, 2006

É isto um homem?

Sumida por um longo tempo, é que agora as leituras e os estudos me consomem imensamente.
Queria deixar aqui dois fragmentos de um livro muito forte que andei lendo para a disciplina da História.
"É isto um homem?", publicado em 1947 pelo escritor italiano Primo Levi. Nele, Levi narra os momentos que passou em Auschwitz como prisioneiro judeu. Impressionante o relato, estou até agora chocada, como se era de esperar...
O homem pode ser brutal, o mais brutal dos animais...
Li a versão em espanhol (1988), mas vou traduzi-la aqui para o portuga.
"Já estamos transformados nos fantasmas que havíamos deslumbrado noite passada. Então pela primeira vez nos demos conta de que nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a destruição de um homem. Em um instante, com intuição quase profética, a realidade nos é revelada: chegamos ao fundo. Mais fundo que isso não se pode chegar: uma condição humana mais miserável não existe tampouco se pode imaginar. Não temos nada nosso: tiraram-nos as roupas, os sapatos e até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e caso nos escutassem, não nos entenderiam. Até mesmo o nome nos tiraram: e se quisermos conservá-lo deveremos encontrar dentro uma força arquitetada de tal maneira que, atrás do nome, algo nosso, algo do que um dia fomos, enfim permaneça.
Sabemos que é difícil que alguém consiga entender tudo isso, e até compreensível, mas pense no valor, no significado que há mesmo nos mais pequenos de nossos costumes cotidianos, nos cem objetos nossos que o mais humilde mendigo possui: um trapo que seja, uma carta velha, a foto de uma pessoa querida. Estas coisas são parte de nós, quase que como membros de nosso corpo; e é impensável que nos vejamos privados delas, em nosso mundo, sem que imediatamente encontremos outras que as substituam, outros objetos que nos pertençam, suscitando ser nossas memórias.
Pois imaginem agora um homem a quem, além de suas pessoas amadas, roubem-lhe também a casa, os costumes, as roupas, tudo, literalmente tudo o que possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à necessidade, vazio de dignidade e de juízo, porque àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos [...]" (Capítulo "En el fondo").
"Por que tudo isto? Por que a dor de cada dia se traduz em nossos sonhos tão constantemente na cena repetida da narração que ninguém, absolutamente ninguém escuta?
Muitos tremem os lábios e batem as mandíbulas. Sonham que estão comendo: este é também um sonho coletivo. É um sonho impiedoso, quem inventó o mito de Tântalo deveria conhecê-lo. E não apenas podem ver os alimentos, como também o sentem nas mãos de modo concreto, percebem seu gosto rico e violento; e há aqueles que o levam à boca [...]. E então desaparece o sonho e se rompem seus elementos [...].
Assim se arrastam nossas noites. O sonho de Tântalo e o sonho do relato se inserem num tecido de imagens menos claras: o sofrimento, golpes, frio, cansaço, medo e promiscuidade reaparecem pelas noites nos pesadelos informes de uma violência maldita que só se pode ter o homem livre em horrendas noites de febre". (Capítulo "Nuestras noches").
Foto do Holocausto: Cena horrenda. Prisioneiros submetidos a experimentos médicos em Auschwitz.
Mortos empilhados em campo de concentração (Belsen).
Crianças submetidas a experimentos médicos em Aushwitz.
E por fim, não menos chocante, foto de uma criança cujas pernas foram estraçalhadas na invasão do Iraque pelos EUA e seus aliados.
SERÁ QUE O HOLOCAUSTO ACABOU??????????????

5 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Let the time return to its time
That who eats sick kids:
The Cro Magnon man,
Eat the snakes in the holes,
Eat the bugs under the stones,
But
Beware of eating me,
This sick kid of the cave is poisonous.

The time is this time,
That who chases the elderly up to the trees,
Shakes,
Drops,
and eats them;
The pre-historic man of Australia,
Eat the rotten corpses,
Eat the lice on familiar scalps,
But beware of eating me,
This old man of grief is poisonous.

Time doesn't fit the time,
That who eats what she had given birth to,
The cannibal woman,
Your child was my love,
And you ate her raw.

1:23 AM  
Anonymous Anonymous said...

You have an outstanding good and well structured site. I enjoyed browsing through it film editing classes

12:05 AM  
Anonymous Heloisa said...

fiquei extremamente chocada com estas imagens...e o que vc escreveu, é tão triste pensar que as pessoas agem assim...pensar que chegamos a este ponto e ninguém faz nada, ninguém vê nada...é tão absurdo, revoltante...
as pessoas não querem saber de nada se não acontecer com elas, o que ninguém percebe é que este silêncio está matando o último sopro de humanidade restante nos homo sapiens sapiens...
e que estamos forjando nosso próprio fim e cavando a própria cova...

9:05 AM  
Blogger Mao said...

de fato nao acabou. por favor, consulte este site: http://holocaustoanimalbrazil.blogspot.com/

é sempre se pensar no holocausto que permanece... na violência inconsequente aos diferentes... apesar de toda sua dor.

8:31 PM  
Anonymous Anonymous said...

Para os animais, todo dia é Treblinka.
Isaac Bashevis Singer.

7:21 PM  

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