Despedida de solteiro
Murilo sempre fora aquele sujeito calmo, correto, idôneo e responsável. Desde os tempos de infância se mostrava estudioso e esforçado, sabia a tabuada do oito e do nove quando a maioria dos outros meninos ainda mal conseguia entender o resultado de três vezes nove.
Na adolescência, Murilo já exibia os dotes de engenheiro elétrico, sempre prestativo a consertar o rádio do tio surdo e a tevê velha da vizinha de baixo. Na faculdade não demorou a chamar a atenção dos professores - tão logo o rapaz se formou trataram de encaminhá-lo a um excelente cargo na fábrica de carros da Capital. Foi exatamente nesta época, pouco antes se graduar, que conheceu Eugênia. Moça rica, de família renomada, cursava o quinto período de odontologia e tão bonita era que havia sido eleita Miss dois anos antes de engatarem o namoro.
Murilo não vinha de família rica, porém o pai, proprietário classe média de um estabelecimento comercial, sempre havia incentivado e visualizado no filho o padrão da perfeição burguesa: moço alto, magro, de olhos verdes e cabelos negros, barba e cabelos sempre aparados, tom de voz suave e inteligência notável. Sim, esse sempre fora o seu orgulho, a razão de ser de seus dias. Dizia o Seu Estevão: "Murilo, esse é o orgulho da minha vida. De todos os filhos que Deus poderia ter me dado, não poderia ter melhor que esse". As louvações se seguiam nas palavras do tio surdo: "É um menino muito bom esse Murilo" e nos elogios eloquentes da mãe, sempre pronta a fazer inveja às vizinhas: "Murilo é um partido e tanto: engenheiro formado, ganha mais de sete mil por mês e namora moça bonita e rica. Que mais uma mãe pode querer de um filho? Semana passada mesmo me deu de presente um par de sapatos dos caros, comprado em botique de marca lá do centro".
E assim os dias de Murilo - "o ex-suburbano" - se passavam: da glória de rapaz da periferia a jovem que conquistara todos os títulos que a burguesia pede a seus nobres e promissores jovens. E estando empregado, estabilizado, com salário de mais de sete mil por mês e um carro do ano, natural que se casasse com Eugênia, namorada há mais de dois anos.
Marcaram a data. Apesar da condição social de Murilo ser inferior à da noiva, os pais da moça muito o prezavam, especialmente porque se mostrava ser um rapaz educadíssimo, atencioso e e cuidadoso para com a moça, além de demonstrar um potencial imenso para crescer na sociedade. Ora, bem ou mal a filha namorava um engenheiro elétrico que ganhava um bom salário por mês e que só demonstrava despontar no trabalho. Prontamente haveria de ser designado a gerente de produção e com o tempo não tardaria a ser nomeado chefe da área, podendo trabalhar durante alguns anos na Alemanha, sede da empresa automobilística. Que não diria o sogro aos amigos: "Murilo, meu genro, está morando em Frankfurt. Ganha em euros, fala inglês e alemão com perfeição. Vou visitá-los no próximo verão e então iremos ao Leste europeu".
Pois todos amavam Murilo! Esse Murilo era um rapaz e tanto! Tão perfeito, tão correto, tão bom-partido que as vizinhas do subúrbio não se cansavam de lamentar que o rapaz iria se casar em breve - e as filhas perdendo um moço assim!
Conversas à parte, Murilo estabelecera a data do casamento: 22 de maio. Quem na verdade escolhera a data fora a noiva, pois maio, além de ser o mês oficial das noivas, era também uma ótima ocasião para se celebrar um casamento, visto que não fazia tanto calor nessa época e poderiam logo em seguida partir para a lua-de-mel na Europa, já branda do frio, em vias de começar a receber o calor da primavera. Verão em Paris, eis o sonho da noiva.
Marcada a data, os preparativos começaram a ser feitos, pois à noiva e à mãe da noiva sete meses para o grande dia pareciam nada. Que festa seria aquela! Claro, tudo às custas do pai, que não perderia por nada desse mundo demonstrar seu capital, esbanjando os melhores vinhos, o melhor buffet, a festa mais requintada. Pensava ele: "O Abraão não perde por esperar: aquele casamento chinfrim da filha dele vai desaparecer perto do da minha Eugênia. Só bebida importada, e de quebra a surpresa: vou trazer o Agnaldo Raiol em pessoa para cantar na triunfante entrada a Ave Maria. Quero só ver a cara desse turco de araque!".
Os amigos não ficaram atrás: desde que souberam que Murilo finalmente iria subir ao altar, trataram de tramar as artimanhas para a tal noite de despedida de solteiro - evidentemente tudo muito bem escondido da noiva, que não poderia nem ao menos sonhar com os planos lúbricos que se passavam naquelas cabeças masculinas ávidas por mulheres, bebidas e diversão boêmia.
Travaram então a data: dia 19 de maio. Dois dias antes do casamento seria uma boa ocasião, afinal o noivo teria ainda um dia para se recompor das orgias e mostrar-se inteiro durante a cerimônia e a festa.
Quem inicialmente teve a idéia de realizar a tal despedida de solteiro fora Caio. Dos cinco amigos, este sempre o fora o mais boêmio, o mais irresponsável, o mais despreocupado e o mais alegre de todos. Bom vivan, enrolava a pobre da namorada há oito anos e sempre conseguia se safar quando o assunto era casamento. Aliás, sujeito bom de lábia como esse tal de Caio nunca se vira! Mantinha um discurso tão sedutor que encantava a todos ao seu redor. Não trabalhava - "fingia" ajudar o pai na fábrica, mas nunca lá aparecia, a não ser para pegar a mesada e gastar uns "trocados" com mulheres loiras de ancas largas (sua perdição!) e uísque.
Quanto aos outros quatro amigos - como era de se esperar - não tiveram dúvidas ao deixar todos os preparativos nas mãos de Caio, realmente o mais "habilitado" para tal questão. Henrique, o médico, era o mais esnobe dos cinco. Adorava contar vantagens sobre suas viagens a congressos sobre cardiologia nos Estados Unidos, trocava mais de carros do que de namoradas e constantemente soltava palavras em inglês no meio das frases. E assim, trajando jaleco de brancura impecável, sorriu ao saber da tal "despedida": "Ora meu caro Caio, that´s great! Vai ser terrific realizarmos esta farewell party para nosso querido Murilo. Será realmente uma noite inesquecível; unforgetable".
Já Paulo, o mais velho de todos, não via a hora de poder "transviar" o amigo: desde os tempos de escola fazia questão de tentar Murilo com revistinhas eróticas de mulheres dinamarquesas, que, segundo ele, "eram as mais voluptuosas". Bom vivan como Caio - com a diferença de que tocava com seriedade as fazendas de soja do pai -, tinha por hobbie colecionar cigarros e charutos: mais de quinhentas marcas e variedades. Onde quer que fosse, comprava um. Qualquer amigo que para o estrangeiro viajasse, trazia-lhe um de presente. Já era casado, tinha dois filhos gêmeos e loiros como ele, mas é bem sabido que discretamente dava suas "puladas de cerca" com belas nativas paraguaias quando ia cuidar das fazendas do pai em Ponta Porã. Mas Mara não suspeitava de nada - era terrivelmente ciumenta, quase doente!
E por fim, o quarto amigo, o Machado. Esse era o amigo mais recente de todos. Murilo nunca havia comentado nada com nenhum dos outros rapazes, mas no fundo não sentia lá muito afeto por Machado. Todos os quatro eram infiéis a suas respectivas namoradas e esposas, por bem dizer, mas estas eram infidelidades veladas. Quando em companhia de suas amadas, bajulavam-nas e as tratavam com carinho e ternura. Ou, como dizia Caio: "Damos nossas escapulidas, é verdade, mas amamos muito nossas queridinhas e delas nunca vamos nos separar". Machado já não podia se encaixar tanto ao grupo, fato este justificado por ser brutal com a esposa. Tinha o terrível hábito de bater em Ivone, deixando-lhe vezes marcas nos braços e no rosto. "Que foi esse roxo?", perguntavam as respectivas mulheres em encontros sociais como churrascos ou idas a restaurantes caros. E ela, cabisbaixa, sempre tratava de inventar desculpas mirabolantes como aquela de que havia caído da cadeira ao limpar o guarda-roupa dos filhos e, na tentativa de se equilibrar, metera o olho na quina da porta, ou ainda, havia tropeçado nos degraus da sala e caído de bruços, tamanho tombo que a forçara a usar uma tipóia por mais de cinco dias. Diziam as outras mulheres, com a ingenuidade atroz de quem se isola no casulo do lar (inclusive Eugênia): "Mas essa Ivone é desastrada mesmo!".
Murilo acabara sabendo da verdade tão logo Machado se casara com Ivone, mas jamais havia se manifestado a respeito - nem mesmo com a noiva - por saber que provocaria o maior rebuliço em vão, pois a esposa jamais se separaria do amigo. Em verdade, até pensava que Ivone se sentia "merecedora" daquela situação toda. Explique-se: a moça, apesar dos lindos olhos azuis e da pele de pêssego, engordara absurdamente após o nascimento dos filhos, que agora tinham três e dois anos. E desde então o marido passara a sair para noitadas, sempre a humilhando, maltratando-a com termos pejorativos como "baleia", "porca nojenta" e "gorda horrorosa". Mas isto é, somente entre quatro paredes. Na frente dos outros, mostrava-se um excelente marido, amável e sempre muito apaixonado. As outras diziam: "Mas esse seu marido Ivone é muito querido! E olha só: você ganhou outro anel de brilhante. Meus Deus, mas isso é que é amor!". Claro, ganhado outro anel de brilhante graças ao dinheiro de Ivone, pois era mais do que óbvio que o marido ainda se mantivesse a seu lado por causa de sua grande fortuna: Ivone Guimarães Dorneles, isso mesmo, a herdeira do grande banqueiro de Coimbra.
Comentários à parte, assim se resumia o círculo de amizades de Murilo. E eram esses, exatamente esses, os que o propiciariam a noite mais "caliente" de sua vida. Murilo, no entanto, manteve-se resistente à festinha. De todos, era o único fiel e correto. Em sua cabeça, Eugênia seria a esposa perfeita, mãe dedicada, atenciosa esposa, ótima dona-de-casa. O diploma de dentista apenas serveria para lhe dar um ar de "moça formada", mas o que importaria mesmo seriam a casa, os filhos e os afazeres domésticos - fato este que não tardaria a confirmar a vocação da jovem para a "arte do lar". Além disso, como já dito anteriormente, Eugênia era muito bonita e até mesmo Miss havia sido eleita! Que mais poderia Murilo querer da vida?
Sim, é verdade que Murilo titubeou, resistiu, tentou fugir da noitada, mas os amigos não permitiram. Na verdade, coagiram-no com tal ímpeto que a ele não lhe restou opção a não ser sucumbir às ganas dos companheiros. Pensava ele: "Tudo bem, vou para que parem de me apurrinhar, mas não farei nada de errado. Eu me limitarei a tomar uns bons drinques e a ficar com uma bela ressaca, mas nada além disto". Com este pensamento, entrou - ou melhor, foi literalmente "empurrado" no banco traseiro da caminhonete de Paulo e lá se foram os cinco ao prostíbulo.
E que prostíbulo! Caio havia se encarregado de "fechar" o estabelecimento aos amigos e a outros clientes vips. A "Yes kez sirumen", como era conhecido o local, dizia-se pelo fato da proprietária, a senhora Baidzar, ser uma belíssima armena que havia se mudado para o Brasil em meados dos anos 70 e desde então fundado a casa de massagens e drinques, que em sua tradução literal significa "Eu te amo". As moças eram as mais variadas, atendendo a todos os gostos: altas, baixas, magras, encorpadas, de seios fartos e apoucados, pernas grossas e silhuetas íngremes, negras de músculos evidentes, asiáticas de feições delicadas, caucasianas de olhos grandes e claros, mulatas bem alegres e fogosas, loiras fatais, riuvas misteriosas, latinas sensuais. O que se quisesse, lá se achava. Dos dezesseis (apesar de ilegal, esta idade sempre agradava a velhos latifundiários) aos 68. Sim, de todos os gostos, línguas e saberes. E nesse ambiente de cores, cheiros de almíscar, jasmim e limão, entre tantas bebidas e músicas e falas, entre tantos beijos e rostos colados, pernas e lábios, eis que Murilo fora lançado como náufrago ao mar. Tão logo a festa começou os amigos trataram de tentar embriagá-lo, fato este que não ocorreu com a procedência esperada, pois o rapaz de segurou ao máximo para não perder a noção da realidade estando em tal babel de corpos e sexos. Fingia apenas estar bebendo com vólúpia, vez outra outra despejando os copos de vodka na pia do banheiro e os substituindo por água. Em poucas horas os amigos, tomados pelo álcool e pelo fervor do local, resolveram presentear Murilo com uma surpresa: "a mascarada". Moça de estatura mediana, cabelos castanhos-escuros, corpo esbelto, era uma das atrações da casa, justamente por ser ótima dançarina. Como se pode supor, esse era seu nome, justamente por esconder o rosto com uma pomposa máscara veneziana. Mas o principal dela, ou melhor, seu atributo de dançarina era somente revelado particular, para clientes muito bem selecionados. Dela diziam-se maravilhas, estas maravilhas que bem saem das bocas masculinas.
E sem que pudesse dizer "não", os amigos despejaram o amigo à força ao quarto onde se encontrava a tal "mascarada". Não tinha agora como revidar, pois além dos amigos, havia os clientes vips que lá o avistavam e negar subir ao quarto da moça seria sinônimo de renegar a própria condição masculina, ou, em outras palavras, a altivez de macho. Contrariado, foi-se embora, já que uma coisa não era nessa vida: maricas.
Ao se ver trancado no quarto com a moça, dona de um escultural corpo, Murilo se sentiu, pela primeira vez desde que começara a namorar Eugênia, extremamente excitado por outra mulher. E essa idéia lhe caiu bem, como se caem bem certas refeições. Ele então se sentou na beirada da cama e deixou com que a "mascarada" o fizesse certos carinhos. Gostava de seu cheiro. E seu corpo o encantava. Mas havia algo além, que percebera desde o primeiro momento em que lhe pusera os olhos: algo nela o encantava; algo de triste o encantava.
E essa tristeza presente na moça, escondendo os olhos atrás de uma máscara, inundara-o subitamente, logo aos primeiros toques da bela jovem. Rapidamente o excitamento se transformou em revelação, e teve vontade de chorar. Mas chorar, por que haveria esse homem tão afortunado, em um momento de gozo pleno como aquele, por que haveria ele de chorar?
Não soube respoder. Mas chorou. E soluçou. A moça espantou-se, rapidamente tratou de se agachar a seu lado e a perguntar qual era o problema, indagava-o se estava nervoso ou se queria um corpo d´água. Mas fundo, bem fundo, teve a resposta: chorava por uma vida imbecil, por toda uma trajetória bem feita, seguida à risca primeiramente pelos pais, e depois pela noiva insosa e sua família. Nunca havia transgredido ordem alguma, eis sua primeira transgressão. Em breve iria estar dormindo ao lado de uma prostituta, amando-a como a ferocidade dos leões (coisa que não se faz com esposa, é claro!). E esta transgressão o emocionava, ao mesmo tempo que o enojava ter servido a vida toda aos anseios alheios que não os seus. Queria mesmo ser engenheiro ou só o fora por dogmatização da família? Gostava de história, adorava ler sobre as pirâmides do Egito, sobre os filósofos gregos e chineses, tinha grande admiração pela sagas dos grandes heróis bíblicos. Sim, por que não escolhera ser um professor de história, dar aulas na rede pública, ter um Fusca, morar na periferia, ser feliz ao lado de uma moça qualquer como aquela "mascarada" infeliz? Por que se casar, subir ao altar, dizer "sim", ser fiel ao resto de seus dias a uma moça que jamais havia estado a canto algum, que tudo o que entendia era de roupas e dentes brancos? E o sogro, aquele arrogante, nojento e imponente, sempre se mostrando superior a tudo e a todos? E a sogra, mulher calada e submissa, uma verdadeira coitada, um nada no mundo que só fazia gastar dinheiro pintando as unhas de um rosa patético? E a mãe, suburbana prestes a realizar o sonho de aparecer na página colorida da coluna social do jornal e quem sabe então nutrir amizades com senhoras da alta-sociedade? O pai... O pai, prestes a ver o filho decolar cada vez mais na profissão, o "orgulho" da família. E que dizer dos amigos, se é que podia chamá-los de amigos? Homens presos ao mundo das aparências, seres reduzidos às suas miúdas realidades, de objetos, de mulheres-objeto, de poucas ambições intelectuais (apesar de certos deles serem de fato profissionais formados e "educados" pelo sistema), nenhuma inclinação ao bem-estar social, e por que não dizer, mergulhados num mundo material, supérfluo e banal?
Sim, pela primeira vez desde sempre Murilo havia se questionado, alegrava-se com a idéia da transgressão e por isso chorava. Era um choro de felicidade. Era uma ablução.
Tratou de agarrar a "mascarada", despiu-a com volúpia e com ela passou a noite toda a fazer o mais dos instintivos sexos. No dia seguinte iria embora, pediria para que ela arrumasse suas coisas, sairia escondido de lá com a moça, todos iriam procurá-lo, os amigos desesperados, acossados pelas eventuais amadas; a noiva aos prantos; os pais desesperados imaginando o pior, pois Murilo era a perfeição e algo de ruim desse mundo malvado havia lhe acontecido; os sogros sem respostas. E Murilo, sorrindo, deixaria o emprego, trataria de vender o carro e viajar pra bem longe com aquela mulher estranha, quem sabe iria a outro país, nada de Alemanha ou Europa, mas aos confins bolivianos. Trataria de deixar o cabelo e a barba tomarem corpo, gastaria seus dias aprendendo a história e a geografia dos povos andinos e não demoraria para que se tornasse mendigo. Anos após ser abandonada, Eugênia se casaria com Henrique (que abandonaria Dinorá), teria filhos e seria prontamente traída, porém paparicada e enchida de presentes. A família de Murilo choraria o desaparecimento - quem sabe a morte - do filho perfeito, os amigos jamais entenderiam o que foi que aconteceu e lá bem longe, com os dentes sujos e o sorriso largo, pela primeira vez Murilo sentiria o gosto da liberdade ao ouvir: "Das Dores. Meu nome de verdade é Maria das Dores".
Na adolescência, Murilo já exibia os dotes de engenheiro elétrico, sempre prestativo a consertar o rádio do tio surdo e a tevê velha da vizinha de baixo. Na faculdade não demorou a chamar a atenção dos professores - tão logo o rapaz se formou trataram de encaminhá-lo a um excelente cargo na fábrica de carros da Capital. Foi exatamente nesta época, pouco antes se graduar, que conheceu Eugênia. Moça rica, de família renomada, cursava o quinto período de odontologia e tão bonita era que havia sido eleita Miss dois anos antes de engatarem o namoro.
Murilo não vinha de família rica, porém o pai, proprietário classe média de um estabelecimento comercial, sempre havia incentivado e visualizado no filho o padrão da perfeição burguesa: moço alto, magro, de olhos verdes e cabelos negros, barba e cabelos sempre aparados, tom de voz suave e inteligência notável. Sim, esse sempre fora o seu orgulho, a razão de ser de seus dias. Dizia o Seu Estevão: "Murilo, esse é o orgulho da minha vida. De todos os filhos que Deus poderia ter me dado, não poderia ter melhor que esse". As louvações se seguiam nas palavras do tio surdo: "É um menino muito bom esse Murilo" e nos elogios eloquentes da mãe, sempre pronta a fazer inveja às vizinhas: "Murilo é um partido e tanto: engenheiro formado, ganha mais de sete mil por mês e namora moça bonita e rica. Que mais uma mãe pode querer de um filho? Semana passada mesmo me deu de presente um par de sapatos dos caros, comprado em botique de marca lá do centro".
E assim os dias de Murilo - "o ex-suburbano" - se passavam: da glória de rapaz da periferia a jovem que conquistara todos os títulos que a burguesia pede a seus nobres e promissores jovens. E estando empregado, estabilizado, com salário de mais de sete mil por mês e um carro do ano, natural que se casasse com Eugênia, namorada há mais de dois anos.
Marcaram a data. Apesar da condição social de Murilo ser inferior à da noiva, os pais da moça muito o prezavam, especialmente porque se mostrava ser um rapaz educadíssimo, atencioso e e cuidadoso para com a moça, além de demonstrar um potencial imenso para crescer na sociedade. Ora, bem ou mal a filha namorava um engenheiro elétrico que ganhava um bom salário por mês e que só demonstrava despontar no trabalho. Prontamente haveria de ser designado a gerente de produção e com o tempo não tardaria a ser nomeado chefe da área, podendo trabalhar durante alguns anos na Alemanha, sede da empresa automobilística. Que não diria o sogro aos amigos: "Murilo, meu genro, está morando em Frankfurt. Ganha em euros, fala inglês e alemão com perfeição. Vou visitá-los no próximo verão e então iremos ao Leste europeu".
Pois todos amavam Murilo! Esse Murilo era um rapaz e tanto! Tão perfeito, tão correto, tão bom-partido que as vizinhas do subúrbio não se cansavam de lamentar que o rapaz iria se casar em breve - e as filhas perdendo um moço assim!
Conversas à parte, Murilo estabelecera a data do casamento: 22 de maio. Quem na verdade escolhera a data fora a noiva, pois maio, além de ser o mês oficial das noivas, era também uma ótima ocasião para se celebrar um casamento, visto que não fazia tanto calor nessa época e poderiam logo em seguida partir para a lua-de-mel na Europa, já branda do frio, em vias de começar a receber o calor da primavera. Verão em Paris, eis o sonho da noiva.
Marcada a data, os preparativos começaram a ser feitos, pois à noiva e à mãe da noiva sete meses para o grande dia pareciam nada. Que festa seria aquela! Claro, tudo às custas do pai, que não perderia por nada desse mundo demonstrar seu capital, esbanjando os melhores vinhos, o melhor buffet, a festa mais requintada. Pensava ele: "O Abraão não perde por esperar: aquele casamento chinfrim da filha dele vai desaparecer perto do da minha Eugênia. Só bebida importada, e de quebra a surpresa: vou trazer o Agnaldo Raiol em pessoa para cantar na triunfante entrada a Ave Maria. Quero só ver a cara desse turco de araque!".
Os amigos não ficaram atrás: desde que souberam que Murilo finalmente iria subir ao altar, trataram de tramar as artimanhas para a tal noite de despedida de solteiro - evidentemente tudo muito bem escondido da noiva, que não poderia nem ao menos sonhar com os planos lúbricos que se passavam naquelas cabeças masculinas ávidas por mulheres, bebidas e diversão boêmia.
Travaram então a data: dia 19 de maio. Dois dias antes do casamento seria uma boa ocasião, afinal o noivo teria ainda um dia para se recompor das orgias e mostrar-se inteiro durante a cerimônia e a festa.
Quem inicialmente teve a idéia de realizar a tal despedida de solteiro fora Caio. Dos cinco amigos, este sempre o fora o mais boêmio, o mais irresponsável, o mais despreocupado e o mais alegre de todos. Bom vivan, enrolava a pobre da namorada há oito anos e sempre conseguia se safar quando o assunto era casamento. Aliás, sujeito bom de lábia como esse tal de Caio nunca se vira! Mantinha um discurso tão sedutor que encantava a todos ao seu redor. Não trabalhava - "fingia" ajudar o pai na fábrica, mas nunca lá aparecia, a não ser para pegar a mesada e gastar uns "trocados" com mulheres loiras de ancas largas (sua perdição!) e uísque.
Quanto aos outros quatro amigos - como era de se esperar - não tiveram dúvidas ao deixar todos os preparativos nas mãos de Caio, realmente o mais "habilitado" para tal questão. Henrique, o médico, era o mais esnobe dos cinco. Adorava contar vantagens sobre suas viagens a congressos sobre cardiologia nos Estados Unidos, trocava mais de carros do que de namoradas e constantemente soltava palavras em inglês no meio das frases. E assim, trajando jaleco de brancura impecável, sorriu ao saber da tal "despedida": "Ora meu caro Caio, that´s great! Vai ser terrific realizarmos esta farewell party para nosso querido Murilo. Será realmente uma noite inesquecível; unforgetable".
Já Paulo, o mais velho de todos, não via a hora de poder "transviar" o amigo: desde os tempos de escola fazia questão de tentar Murilo com revistinhas eróticas de mulheres dinamarquesas, que, segundo ele, "eram as mais voluptuosas". Bom vivan como Caio - com a diferença de que tocava com seriedade as fazendas de soja do pai -, tinha por hobbie colecionar cigarros e charutos: mais de quinhentas marcas e variedades. Onde quer que fosse, comprava um. Qualquer amigo que para o estrangeiro viajasse, trazia-lhe um de presente. Já era casado, tinha dois filhos gêmeos e loiros como ele, mas é bem sabido que discretamente dava suas "puladas de cerca" com belas nativas paraguaias quando ia cuidar das fazendas do pai em Ponta Porã. Mas Mara não suspeitava de nada - era terrivelmente ciumenta, quase doente!
E por fim, o quarto amigo, o Machado. Esse era o amigo mais recente de todos. Murilo nunca havia comentado nada com nenhum dos outros rapazes, mas no fundo não sentia lá muito afeto por Machado. Todos os quatro eram infiéis a suas respectivas namoradas e esposas, por bem dizer, mas estas eram infidelidades veladas. Quando em companhia de suas amadas, bajulavam-nas e as tratavam com carinho e ternura. Ou, como dizia Caio: "Damos nossas escapulidas, é verdade, mas amamos muito nossas queridinhas e delas nunca vamos nos separar". Machado já não podia se encaixar tanto ao grupo, fato este justificado por ser brutal com a esposa. Tinha o terrível hábito de bater em Ivone, deixando-lhe vezes marcas nos braços e no rosto. "Que foi esse roxo?", perguntavam as respectivas mulheres em encontros sociais como churrascos ou idas a restaurantes caros. E ela, cabisbaixa, sempre tratava de inventar desculpas mirabolantes como aquela de que havia caído da cadeira ao limpar o guarda-roupa dos filhos e, na tentativa de se equilibrar, metera o olho na quina da porta, ou ainda, havia tropeçado nos degraus da sala e caído de bruços, tamanho tombo que a forçara a usar uma tipóia por mais de cinco dias. Diziam as outras mulheres, com a ingenuidade atroz de quem se isola no casulo do lar (inclusive Eugênia): "Mas essa Ivone é desastrada mesmo!".
Murilo acabara sabendo da verdade tão logo Machado se casara com Ivone, mas jamais havia se manifestado a respeito - nem mesmo com a noiva - por saber que provocaria o maior rebuliço em vão, pois a esposa jamais se separaria do amigo. Em verdade, até pensava que Ivone se sentia "merecedora" daquela situação toda. Explique-se: a moça, apesar dos lindos olhos azuis e da pele de pêssego, engordara absurdamente após o nascimento dos filhos, que agora tinham três e dois anos. E desde então o marido passara a sair para noitadas, sempre a humilhando, maltratando-a com termos pejorativos como "baleia", "porca nojenta" e "gorda horrorosa". Mas isto é, somente entre quatro paredes. Na frente dos outros, mostrava-se um excelente marido, amável e sempre muito apaixonado. As outras diziam: "Mas esse seu marido Ivone é muito querido! E olha só: você ganhou outro anel de brilhante. Meus Deus, mas isso é que é amor!". Claro, ganhado outro anel de brilhante graças ao dinheiro de Ivone, pois era mais do que óbvio que o marido ainda se mantivesse a seu lado por causa de sua grande fortuna: Ivone Guimarães Dorneles, isso mesmo, a herdeira do grande banqueiro de Coimbra.
Comentários à parte, assim se resumia o círculo de amizades de Murilo. E eram esses, exatamente esses, os que o propiciariam a noite mais "caliente" de sua vida. Murilo, no entanto, manteve-se resistente à festinha. De todos, era o único fiel e correto. Em sua cabeça, Eugênia seria a esposa perfeita, mãe dedicada, atenciosa esposa, ótima dona-de-casa. O diploma de dentista apenas serveria para lhe dar um ar de "moça formada", mas o que importaria mesmo seriam a casa, os filhos e os afazeres domésticos - fato este que não tardaria a confirmar a vocação da jovem para a "arte do lar". Além disso, como já dito anteriormente, Eugênia era muito bonita e até mesmo Miss havia sido eleita! Que mais poderia Murilo querer da vida?
Sim, é verdade que Murilo titubeou, resistiu, tentou fugir da noitada, mas os amigos não permitiram. Na verdade, coagiram-no com tal ímpeto que a ele não lhe restou opção a não ser sucumbir às ganas dos companheiros. Pensava ele: "Tudo bem, vou para que parem de me apurrinhar, mas não farei nada de errado. Eu me limitarei a tomar uns bons drinques e a ficar com uma bela ressaca, mas nada além disto". Com este pensamento, entrou - ou melhor, foi literalmente "empurrado" no banco traseiro da caminhonete de Paulo e lá se foram os cinco ao prostíbulo.
E que prostíbulo! Caio havia se encarregado de "fechar" o estabelecimento aos amigos e a outros clientes vips. A "Yes kez sirumen", como era conhecido o local, dizia-se pelo fato da proprietária, a senhora Baidzar, ser uma belíssima armena que havia se mudado para o Brasil em meados dos anos 70 e desde então fundado a casa de massagens e drinques, que em sua tradução literal significa "Eu te amo". As moças eram as mais variadas, atendendo a todos os gostos: altas, baixas, magras, encorpadas, de seios fartos e apoucados, pernas grossas e silhuetas íngremes, negras de músculos evidentes, asiáticas de feições delicadas, caucasianas de olhos grandes e claros, mulatas bem alegres e fogosas, loiras fatais, riuvas misteriosas, latinas sensuais. O que se quisesse, lá se achava. Dos dezesseis (apesar de ilegal, esta idade sempre agradava a velhos latifundiários) aos 68. Sim, de todos os gostos, línguas e saberes. E nesse ambiente de cores, cheiros de almíscar, jasmim e limão, entre tantas bebidas e músicas e falas, entre tantos beijos e rostos colados, pernas e lábios, eis que Murilo fora lançado como náufrago ao mar. Tão logo a festa começou os amigos trataram de tentar embriagá-lo, fato este que não ocorreu com a procedência esperada, pois o rapaz de segurou ao máximo para não perder a noção da realidade estando em tal babel de corpos e sexos. Fingia apenas estar bebendo com vólúpia, vez outra outra despejando os copos de vodka na pia do banheiro e os substituindo por água. Em poucas horas os amigos, tomados pelo álcool e pelo fervor do local, resolveram presentear Murilo com uma surpresa: "a mascarada". Moça de estatura mediana, cabelos castanhos-escuros, corpo esbelto, era uma das atrações da casa, justamente por ser ótima dançarina. Como se pode supor, esse era seu nome, justamente por esconder o rosto com uma pomposa máscara veneziana. Mas o principal dela, ou melhor, seu atributo de dançarina era somente revelado particular, para clientes muito bem selecionados. Dela diziam-se maravilhas, estas maravilhas que bem saem das bocas masculinas.
E sem que pudesse dizer "não", os amigos despejaram o amigo à força ao quarto onde se encontrava a tal "mascarada". Não tinha agora como revidar, pois além dos amigos, havia os clientes vips que lá o avistavam e negar subir ao quarto da moça seria sinônimo de renegar a própria condição masculina, ou, em outras palavras, a altivez de macho. Contrariado, foi-se embora, já que uma coisa não era nessa vida: maricas.
Ao se ver trancado no quarto com a moça, dona de um escultural corpo, Murilo se sentiu, pela primeira vez desde que começara a namorar Eugênia, extremamente excitado por outra mulher. E essa idéia lhe caiu bem, como se caem bem certas refeições. Ele então se sentou na beirada da cama e deixou com que a "mascarada" o fizesse certos carinhos. Gostava de seu cheiro. E seu corpo o encantava. Mas havia algo além, que percebera desde o primeiro momento em que lhe pusera os olhos: algo nela o encantava; algo de triste o encantava.
E essa tristeza presente na moça, escondendo os olhos atrás de uma máscara, inundara-o subitamente, logo aos primeiros toques da bela jovem. Rapidamente o excitamento se transformou em revelação, e teve vontade de chorar. Mas chorar, por que haveria esse homem tão afortunado, em um momento de gozo pleno como aquele, por que haveria ele de chorar?
Não soube respoder. Mas chorou. E soluçou. A moça espantou-se, rapidamente tratou de se agachar a seu lado e a perguntar qual era o problema, indagava-o se estava nervoso ou se queria um corpo d´água. Mas fundo, bem fundo, teve a resposta: chorava por uma vida imbecil, por toda uma trajetória bem feita, seguida à risca primeiramente pelos pais, e depois pela noiva insosa e sua família. Nunca havia transgredido ordem alguma, eis sua primeira transgressão. Em breve iria estar dormindo ao lado de uma prostituta, amando-a como a ferocidade dos leões (coisa que não se faz com esposa, é claro!). E esta transgressão o emocionava, ao mesmo tempo que o enojava ter servido a vida toda aos anseios alheios que não os seus. Queria mesmo ser engenheiro ou só o fora por dogmatização da família? Gostava de história, adorava ler sobre as pirâmides do Egito, sobre os filósofos gregos e chineses, tinha grande admiração pela sagas dos grandes heróis bíblicos. Sim, por que não escolhera ser um professor de história, dar aulas na rede pública, ter um Fusca, morar na periferia, ser feliz ao lado de uma moça qualquer como aquela "mascarada" infeliz? Por que se casar, subir ao altar, dizer "sim", ser fiel ao resto de seus dias a uma moça que jamais havia estado a canto algum, que tudo o que entendia era de roupas e dentes brancos? E o sogro, aquele arrogante, nojento e imponente, sempre se mostrando superior a tudo e a todos? E a sogra, mulher calada e submissa, uma verdadeira coitada, um nada no mundo que só fazia gastar dinheiro pintando as unhas de um rosa patético? E a mãe, suburbana prestes a realizar o sonho de aparecer na página colorida da coluna social do jornal e quem sabe então nutrir amizades com senhoras da alta-sociedade? O pai... O pai, prestes a ver o filho decolar cada vez mais na profissão, o "orgulho" da família. E que dizer dos amigos, se é que podia chamá-los de amigos? Homens presos ao mundo das aparências, seres reduzidos às suas miúdas realidades, de objetos, de mulheres-objeto, de poucas ambições intelectuais (apesar de certos deles serem de fato profissionais formados e "educados" pelo sistema), nenhuma inclinação ao bem-estar social, e por que não dizer, mergulhados num mundo material, supérfluo e banal?
Sim, pela primeira vez desde sempre Murilo havia se questionado, alegrava-se com a idéia da transgressão e por isso chorava. Era um choro de felicidade. Era uma ablução.
Tratou de agarrar a "mascarada", despiu-a com volúpia e com ela passou a noite toda a fazer o mais dos instintivos sexos. No dia seguinte iria embora, pediria para que ela arrumasse suas coisas, sairia escondido de lá com a moça, todos iriam procurá-lo, os amigos desesperados, acossados pelas eventuais amadas; a noiva aos prantos; os pais desesperados imaginando o pior, pois Murilo era a perfeição e algo de ruim desse mundo malvado havia lhe acontecido; os sogros sem respostas. E Murilo, sorrindo, deixaria o emprego, trataria de vender o carro e viajar pra bem longe com aquela mulher estranha, quem sabe iria a outro país, nada de Alemanha ou Europa, mas aos confins bolivianos. Trataria de deixar o cabelo e a barba tomarem corpo, gastaria seus dias aprendendo a história e a geografia dos povos andinos e não demoraria para que se tornasse mendigo. Anos após ser abandonada, Eugênia se casaria com Henrique (que abandonaria Dinorá), teria filhos e seria prontamente traída, porém paparicada e enchida de presentes. A família de Murilo choraria o desaparecimento - quem sabe a morte - do filho perfeito, os amigos jamais entenderiam o que foi que aconteceu e lá bem longe, com os dentes sujos e o sorriso largo, pela primeira vez Murilo sentiria o gosto da liberdade ao ouvir: "Das Dores. Meu nome de verdade é Maria das Dores".

2 Comments:
Adorei o texto Mar...me escreva emails sua tonta...beijos, te amo, ju.
loira de ancas largas. rs.
garota, você é demais. ainda aprendo alguma coisa te lendo.
beijos e mais beijos
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